(...)"As experiências da nossa vida farão de nós o que somos? Não tenho uma resposta peremptória. Gostaria de ter, mas não a encaro como uma mera questão e de resposta simples. Á partida seria fácil a resposta, visto que a tendência será responder afirmativamente. Impulsivamente e sem cautelas a resposta seria afirmativa. Contudo, quando me debruço com maior seriedade sobre a questão, concluo que não há linearidade na mesma e que afinal não tenho uma resposta categórica.
Partilho, todavia, da perspectiva de que todas as experiências têm a sua relevância. Creio que as experiências fazem parte de nós, mas não o que somos. Por outras palavras, diria que fazem parte da nossa existência, mas não da nossa essência.
As experiências transmitem-nos sensações, que se resumem em duas palavras, leveza e peso, a boa e a má sensação respectivamente. E quando nenhuma delas se manifesta, haverá outra? Não sei, mas talvez a apatia, inércia?! Será que conseguirei transformar a dualidade abordada por Kundera no seu romance “ a insustentável leveza do ser”, e torná-la triangular? Não será essa a minha intenção, até porque a abordagem de Kundera não é aquela que pretendo, visto que não estou a incidir sobre a liberdade humana, a de concretamente optar ou não pelo compromisso.
A problemática na minha cabeça é outra, consistindo directamente nas experiências e consequentes reacções e sentimentos face às mesmas. O que é que nos leva a sentir a leveza, o peso ou até mesmo a apatia?
A mentira…como nos sentimos quando nos mentem ou quando mentimos? Alguns dirão que dependerá da mentira. Mas há mentiras boas e mentiras más? Não surtirão todas elas a mesma sensação? A de peso? Há quem distinga a “mentira inofensiva” ou a “mentira branca”, da “mentira grave”, mas ninguém gosta de ser falsamente persuadido ainda que inofensivamente, mesmo que recorra a essa mentirinha de quando em vez para se safar de alguma situação com a qual não se sinta muito à vontade, sabendo que tal não terá repercussões graves na esfera de outrem. Esse é afinal o argumento de peso de quem a dá, pois ainda que uma mentira seja sempre uma mentira, melhor aquelas que não prejudicarão aqueles a quem espetámos a peta.
Depois deste raciocínio simplista, creio que a conclusão seja a de que independentemente do grau da mentira, em regra nunca nos sentimos inteiramente à vontade quando o fazemos, revelando o tal peso, denominado tantas vezes por “peso na consciência”. E esse desconforto deve-se a quê? Antes de mais, diria que aos valores que nos são incutidos desde tenra idade, porque todos sabemos que mentir é “feio” e que se o fizermos seremos castigados, ou então sabemos que se o fizermos suscitar-se-ão problemas de confiança. Esta é uma das primeiras lições que nos dão, quase antes mesmo de sabermos andar.
Mas e a verdade? Far-nos-á sentir sempre leves? Não creio… ainda que saibamos que, e em consideração a uma série de valores e factores, esta tenha sido a decisão certa. Será esta uma das explicações para o facto de tornar-se mais fácil mentir do que dizer a verdade em determinadas situações? Há quem diga que uma mentira poderá fazer alguém feliz, mas uma verdade poderá magoar muito mais. As verdades são o que são, verdades! Realidades “nuas e cruas”, são sinceras mesmo que a verdade de uns não seja a verdade de outros. A intencionalidade é o que as distingue, independentemente das diferentes e divergentes versões. Quantas vezes acontece estar um número de pessoas a observar a mesma situação e quando a reproduzem surgem com versões diferentes, mas com a convicção da sua verdade?! Duas pessoas no mesmo sitio, na mesma situação, mas com visões diferentes do ocorrido! A verdade é que um deles há-de prestar atenção a pormenores que o outro nem se deu conta, e vice-versa.
Uma realidade, várias verdades e nenhum mentiroso!
Rompendo agora com a minha linha de pensamento e deturpando-a, gostaria de saber se também não existe a “mentira altruísta”? Confusos? Reparem que a intencionalidade mantém-se continuando este a ser o meu critério de aferição. Não obstante, serão todas as mentiras “maldosas”? Obviamente que o alcance da mentira é sempre diferente do da verdade, é ponto assente que quando se mente há, efectivamente, uma falsidade subjacente. Mas a minha questão é se essa falsidade é sempre negativa, colocando de lado o significado depreciativo que o vocábulo obviamente tem, e se não há um altruísmo que só será preponderante se o escondermos atrás de uma mentira? Atenção que as situações nestes casos, pelo menos na minha cabeça, são muito específicas, por isso não generalizar, porque desse modo o meu argumento perderá toda a validade. Eu consigo lembrar-me de algumas mas poucas situações em que tal acontece, casos de fronteira é claro. Não explicitarei nenhum porque cabe a cada um definir as suas fronteiras…definir a sua leveza ou o seu peso…
E a apatia, terá relevância? Já se abordou os extremos, que de vez em quando até se tocam. Mas a apatia, como ponto de equilíbrio ou desajuste profundo? Será a apatia a mais desequilibrada, a que nos causa insensibilidade tal que nem reacção temos. Não há peso, não há leveza, não há basicamente nada… quando a mentira não incomoda, quando a verdade não dita a diferença, quando tudo é insonso, letárgico.
A propósito, vi uma publicidade que dizia, “ninguém vive sem emoções” e cogitei sobre a mesma, sendo que sem necessidade de grande ponderação, e com convicção absoluta conclui que uma vida não se vive sem emoções! Vale a pena viver para sentir, porque de outro modo também não faz sentido…"(...)