Porque o mais provável é ninguem ligar ao que tens a dizer...

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

A fuga

Segundo dados oficiais o desemprego na região é neste momento de 7,0% elevado? Sem duvida, verdadeiro? Longe disso.

Ser desempregado significa ser reconhecido, contabilizado e considerado como tal e ao mesmo tempo defenir-se, revindicar-se e considerar-se como tal

A abordagem estritamente estatística permite descrever certos percursos das economias e sociedades nacionais, no entanto apresenta sérias limitações para captar de um ponto de vista sociológico a população activa e a população de desempregados. Assim, por força das convenções estatísticas as fronteiras entre desemprego, actividade e inactividade são relativas porque estes estatutos resultam de construções sociais próprias das instituições que regulam e analisam o fenómeno

Neste âmbito o conceito institucional de desempregado é muito restrito abrange indivíduos que tendo exercido uma profissão, procuram empregar-se novamente e estão em condições de o fazer. Por isso quando ouve-se falar de taxa de desemprego esta refere-se apenas a estes indivíduos. Exclui-se aqueles que estão a procura do primeiro emprego! Não se contabilizam também aqueles que estando desempregados não reivindicaram junto as instituições competentes esse estatuto. Não se contabilizam fenómenos de desemprego encapotado como daqueles individuo que tendo actividade aberta passam recibos verdes ainda que muito esporadicamente. Mais grave, é vedado o estatuto de desempregado a quem se encontra em situação real de desemprego mas que abre actividade para fazer algum trabalho esporádico que exija a emissão de um recibo verde.
Outro fenómeno que contribui para a artificialização da taxa de desemprego é a emigração, se não está não conta! Mas é preciso questionar o porque desse”não estar”.

A emigração não é coisa do passado é uma realidade bem presente ainda que com contornos diferentes da da geração dos nossos pais e avós. A saída de mão de obra desqualificada e uma realidade que minguem questiona, mas na região assiste-se actualmente a uma saída alarmante de mão de obra qualificada quer para outras regiões do país quer para o estrangeiro. É o chamado fenómeno de “Brain Drain”, a fuga de capital humano detentor de formação e competências técnicas para outras regiões ou países por força de factores como por exemplo a falta de oportunidades na região de origem.

Durante anos o governo regional atribuiu bolsas de estudo, para estudantes que recebiam formação superior fora da região, baseadas no critério de áreas prioritárias e lacunas a nível de pessoal em determinadas áreas do saber. Esse investimento em ensino superior é perdido quando um individuo, vendo goradas as expectativas criadas por força do apoio recebido, não encontra outra solução senão emigrar. Drenaram-se centenas de milhares de euros sem resultados visiveis porque a competência é preterida sistematicamente em favor do compadrio.

O líder do governo regional aquando de uma das suas inúmeras inaugurações perguntou a uma popular em tom jocoso se a senhora comia conhecimento, na região parece que não mas noutros países o conhecimento é que dá de comer! No Haiti já comem bolachas de lama, quem sabe um dia não teremos que comer bolachas de betão...

Portugal e o lider europeu, em termos de fuga de cérebros, está a perder actualmente 19,5% da sua população qualificada e está a ter algumas dificuldades em absorver mais do que aquilo que "sangra" para outros países desenvolvidos, como a Austrália, Canadá, Suíça e outros paises da União europeia. Na região não existem ferramentas de aferição de tal fenómeno mas é com certeza bem maior porque a fuga dá-se em dois sentidos. Por um lado muita da mão de obra qualificada não regressa a região colmatando as falhas resultantes da fuga a nível nacional, e por outro lado também engrossam o fluxo de saída nacional para outros países.

A aposta na sociedade de conhecimento é imperativa para o crescimento sustentado da região, há que aproveitar os novos fundos comunitários que aí vêm apostando num modelo de desenvolvimento que transforme a Madeira numa plataforma europeia de produção de conhecimento. Como? Bem mais facil do que possa parecer, se conseguimos criar condições de fixação de empresas internacionais através do offshore porque não criar um “offshore de conhecimento” criando condições para a fixação na região de centros de investigação, laboratórios, sucursais de grandes universidades americanas e europeias, etc? A Madeira seria a plataforma Atlântica do saber, elo de ligação entre continentes.

O ambiente calmo seria mais que propicio, a oferta hoteleira existe e sairia a ganhar... Só falta uma coisa... vontade política.

4 Comments:

Blogger rouxinol de Bernardim said...

Fuga de cérebros?

Porque é que o Jardim não foge?!

Será que não tem cérebro?

24/2/08 10:01

 
Blogger BaBy_BoY_sWiM said...

É uma verdadeira tristeza essa realidade na nossa ilha e país. Cá na Irlanda nada disso se passa. Não tem o betão, mas tem o conhecimento.

Essas bolsas que o Governo Regional atribui, ainda são distribuidas... Mas agora sem combater as lacunas, sendo para os alunos mais necessitados. Contudo dizem que é assegurado a volta deles para a Região se não terão que pagar a bolsa toda...

Até hoje nunca aconteceu isso, e muitos ficaram pelo continente e outros países...

24/2/08 18:59

 
Blogger stanica said...

A tendência nos dias de hoje é, efectivamente, a fuga de capital humano. A verdade é que nos dias que correm, qualquer sujeito que no seu curriculum mencione uma experiência no estrangeiro é mais valorizado do que aquele que não a teve.

Com a globalização e diria que mais concretamente, com uma maior europeização aos mais variados níveis, há uma maior procura por parte da população de uma experiência fora do seu país.

Antes, creio que o tipo de fuga era essencialmente por parte de uma mão de obra não qualificada, mas que se sujeitava a qualquer actividade fora do país, porque fosse onde fosse tal representaria um melhor salário, e consequentemente uma melhoria das condições de vida. Sendo que a mão de obra qualificada em tempos resumia-se a uma pequena elite em Portugal, e que podia sustentar uma ida para o estrangeiro, em busca do emprego desejado e não desesperadamente necessitado para sobreviver.

A possibilidade de sair do país nos dias de hoje já não se resume a uma pequena elite, que outrora representava a mão de obra qualificada do país. As oportunidades hoje são maiores, não querendo com isto contrariar os teus argumentos, mas pura e simplesmente abordando a questão de um outro prisma que creio que também não deve ser descurado.

Acredito que hoje haja um misto dos dois fenómenos. Aqueles que precisam mesmo de se aventurar fora do país porque o mercado nacional não dá resposta nem apresenta soluções à mão de obra qualificada. E aqueles que se aventuram apenas pela experiência, porque podem e querem.

As exigências do mercado a tal obrigam, de uma maneira ou de outra, quando se toma a decisão porque se pode ou porque se precisa de ter que abandonar o país, a premissa é sempre a mesma, a de que tamanha decisão implicará necessariamente um melhor futuro!

11/3/08 21:28

 
Blogger stanica said...

By the way, adoro a tua ideia da Madeira como "offshore do conhecimento". Uma ideia que devia de ser a aposta da camada política regional, e não só...

11/3/08 21:43

 

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