Porque o mais provável é ninguem ligar ao que tens a dizer...

quinta-feira, janeiro 10, 2008

"Ninguém vive sem emoções"

(...)"As experiências da nossa vida farão de nós o que somos? Não tenho uma resposta peremptória. Gostaria de ter, mas não a encaro como uma mera questão e de resposta simples. Á partida seria fácil a resposta, visto que a tendência será responder afirmativamente. Impulsivamente e sem cautelas a resposta seria afirmativa. Contudo, quando me debruço com maior seriedade sobre a questão, concluo que não há linearidade na mesma e que afinal não tenho uma resposta categórica.
Partilho, todavia, da perspectiva de que todas as experiências têm a sua relevância. Creio que as experiências fazem parte de nós, mas não o que somos. Por outras palavras, diria que fazem parte da nossa existência, mas não da nossa essência.

As experiências transmitem-nos sensações, que se resumem em duas palavras, leveza e peso, a boa e a má sensação respectivamente. E quando nenhuma delas se manifesta, haverá outra? Não sei, mas talvez a apatia, inércia?! Será que conseguirei transformar a dualidade abordada por Kundera no seu romance “ a insustentável leveza do ser”, e torná-la triangular? Não será essa a minha intenção, até porque a abordagem de Kundera não é aquela que pretendo, visto que não estou a incidir sobre a liberdade humana, a de concretamente optar ou não pelo compromisso.
A problemática na minha cabeça é outra, consistindo directamente nas experiências e consequentes reacções e sentimentos face às mesmas. O que é que nos leva a sentir a leveza, o peso ou até mesmo a apatia?

A mentira…como nos sentimos quando nos mentem ou quando mentimos? Alguns dirão que dependerá da mentira. Mas há mentiras boas e mentiras más? Não surtirão todas elas a mesma sensação? A de peso? Há quem distinga a “mentira inofensiva” ou a “mentira branca”, da “mentira grave”, mas ninguém gosta de ser falsamente persuadido ainda que inofensivamente, mesmo que recorra a essa mentirinha de quando em vez para se safar de alguma situação com a qual não se sinta muito à vontade, sabendo que tal não terá repercussões graves na esfera de outrem. Esse é afinal o argumento de peso de quem a dá, pois ainda que uma mentira seja sempre uma mentira, melhor aquelas que não prejudicarão aqueles a quem espetámos a peta.
Depois deste raciocínio simplista, creio que a conclusão seja a de que independentemente do grau da mentira, em regra nunca nos sentimos inteiramente à vontade quando o fazemos, revelando o tal peso, denominado tantas vezes por “peso na consciência”. E esse desconforto deve-se a quê? Antes de mais, diria que aos valores que nos são incutidos desde tenra idade, porque todos sabemos que mentir é “feio” e que se o fizermos seremos castigados, ou então sabemos que se o fizermos suscitar-se-ão problemas de confiança. Esta é uma das primeiras lições que nos dão, quase antes mesmo de sabermos andar.

Mas e a verdade? Far-nos-á sentir sempre leves? Não creio… ainda que saibamos que, e em consideração a uma série de valores e factores, esta tenha sido a decisão certa. Será esta uma das explicações para o facto de tornar-se mais fácil mentir do que dizer a verdade em determinadas situações? Há quem diga que uma mentira poderá fazer alguém feliz, mas uma verdade poderá magoar muito mais. As verdades são o que são, verdades! Realidades “nuas e cruas”, são sinceras mesmo que a verdade de uns não seja a verdade de outros. A intencionalidade é o que as distingue, independentemente das diferentes e divergentes versões. Quantas vezes acontece estar um número de pessoas a observar a mesma situação e quando a reproduzem surgem com versões diferentes, mas com a convicção da sua verdade?! Duas pessoas no mesmo sitio, na mesma situação, mas com visões diferentes do ocorrido! A verdade é que um deles há-de prestar atenção a pormenores que o outro nem se deu conta, e vice-versa.
Uma realidade, várias verdades e nenhum mentiroso!

Rompendo agora com a minha linha de pensamento e deturpando-a, gostaria de saber se também não existe a “mentira altruísta”? Confusos? Reparem que a intencionalidade mantém-se continuando este a ser o meu critério de aferição. Não obstante, serão todas as mentiras “maldosas”? Obviamente que o alcance da mentira é sempre diferente do da verdade, é ponto assente que quando se mente há, efectivamente, uma falsidade subjacente. Mas a minha questão é se essa falsidade é sempre negativa, colocando de lado o significado depreciativo que o vocábulo obviamente tem, e se não há um altruísmo que só será preponderante se o escondermos atrás de uma mentira? Atenção que as situações nestes casos, pelo menos na minha cabeça, são muito específicas, por isso não generalizar, porque desse modo o meu argumento perderá toda a validade. Eu consigo lembrar-me de algumas mas poucas situações em que tal acontece, casos de fronteira é claro. Não explicitarei nenhum porque cabe a cada um definir as suas fronteiras…definir a sua leveza ou o seu peso…

E a apatia, terá relevância? Já se abordou os extremos, que de vez em quando até se tocam. Mas a apatia, como ponto de equilíbrio ou desajuste profundo? Será a apatia a mais desequilibrada, a que nos causa insensibilidade tal que nem reacção temos. Não há peso, não há leveza, não há basicamente nada… quando a mentira não incomoda, quando a verdade não dita a diferença, quando tudo é insonso, letárgico.
A propósito, vi uma publicidade que dizia, “ninguém vive sem emoções” e cogitei sobre a mesma, sendo que sem necessidade de grande ponderação, e com convicção absoluta conclui que uma vida não se vive sem emoções! Vale a pena viver para sentir, porque de outro modo também não faz sentido…"(...)

2 Comments:

Anonymous Iris SM said...

"M'espanto às vezes, outras M'avergonho" - Sá de Miranda ;)*
Falo por mim, mas todos os dias tenho tido fortes emoções e, como se não bastassem serem fortes, sao muito constantes!! Quererá isto dizer que vivo muito? Sou feliz? Dunno.. Unhappy, certamente não sou... mas há emoções perfeitamente dispensáveis!! Don't u think? * kizz (desabafo já fora e dentro da linha do teu post)

16/1/08 18:32

 
Blogger Joana said...

Concordo, a vida não se vive sem emoções, verdades, mentiras, tristezas e alegrias. Adorei o post. Voltarei a me passear pelo Blog.
Bjinhos

5/3/08 18:14

 

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