Porque o mais provável é ninguem ligar ao que tens a dizer...

domingo, junho 10, 2007

Uma visão dos interesses internacionais, a de F. William Engdahl

A propósito de um coment feito num dos post's, e como foi mencionado o petróleo, gostaria de vos deixar o texto na íntegra de F. William Engdahl. Teoria da conspiração ou não, acho que é um texto de algum interesse e que merece uma leitura, relevante nas motivações das relações internacionais.

CONTROLAR TODOS OS "TIRÂNICOS" GARGALOS PETROLÍFEROS DO MUNDO
”Em discursos públicos recentes, George W. Bush e outros na administração, incluindo C. Rice, principiaram a efectuar uma mudança significativa na retórica da guerra. Uma nova "guerra à tirania" está a ser cozinhada a fim de substituir a "guerra ao terror", já fora de moda. Longe de ser uma nuance semântica, a mudança é altamente reveladora da próxima fase da agenda global de Washington.

No seu discurso inaugural de 20 de Janeiro, Bush declarou: "A política dos Estados Unidos é procurar e apoiar o crescimento de movimentos e instituições democráticas em todo os países e culturas, com o objectivo final de acabar com a tirania no nosso mundo". Bush reiterou esta última formulação, "acabar com a tirania no nosso mundo" no seu discurso do Estado da União (ênfase do autor). Em 1917 era uma "guerra para tornar o mundo seguro para a democracia" e em 1941 era uma "guerra para acabar com todas as guerras".

A utilização da tirania como justificação para intervenções militares americanas marca um novo passo dramático na busca por Washington da dominação mundial.
Historicamente, Washington nunca teve problemas em apoiar alguns dos tiranos mundiais de todos os tempos, desde que eles fossem tiranos 'pro-Washington', tais como a ditadura militar de Pervez Musharraf no Paquistão, um paradigma de opressão. Podemos enumerar outras ditaduras apadrinhadas – o Azerbeijão de Aliyev, ou o Uzbequistão de Karimov, ou o Kuwait de Al-Sabah, ou Oman. Talvez mesmo Marrocos, ou a Colômbia de Uribe. Há uma lista enorme de tiranos pró-Washington.•
Por razões óbvias, não é provável que Washington se vire contra os seus “amigos”. A nova cruzada anti-tirania parece pois ser dirigida contra os tiranos “anti-americanos”.


ATACAR ALGUMAS TIRANIAS, APOIAR OUTRAS.
Rice deu algumas pistas quanto à lista de tiranos alvo de Washington no meio de uma outra intervenção nada mansa no seu depoimento no Senado. Declarou, “... No mundo de hoje mantêm-se postos avançados de tirania... em Cuba e Birmânia e na Coreia do Norte, no Irão e na Bielorússia, e no Zimbabué”. Para além do facto de que o secretário de Estado designado não se deu ao trabalho de referir a Birmânia pelo seu nome actual, Myanmar, esta lista é uma indicação da próxima fase na estratégia de Washington das guerras preventivas para a sua estratégia de dominação global

Tão imprudente como parece, dado o pântano iraquiano, o facto de que ainda tenha havido pouco debate aberto sobre uma guerra tão alargada, isto indica quão extenso é o consenso dentro do “establishment” americano de Washington em relação à política de A Indonésia, com enormes recursos de gás natural que abastecem principalmente a China e o Japão, constitui um caso interessante. Embora o país tenha sido aparentemente cooperativo com a Guerra ao Terror de Washington, desde Setembro de 2001, o governo indonésio protestou ruidosamente por altura do recente desastre do tsunami, quando o Pentágono despachou um porta-aviões americano e tropas especiais num prazo de 72 horas que aterraram em Aceh para fazer “trabalhos de salvamento”. O porta-aviões americano Abraham Lincoln, com 2000 marines a bordo, supostamente ligados ao Iraque, juntamente com o navio anfíbio americano Bonhomme Richard, vindo de Guam, desembarcaram cerca de 13 mil tropas americanas em Aceh, o que alarmou muita gente nas forças militares indonésias e no governo. O governo concordou, mas exigiu a saída dos americanos no fim de Março e não permitiu um campo de apoio em Aceh. Foi o que bastou para que o secretário eleito da Defesa, o estratego da guerra do Iraque, Paul Wolfowitz, antigo embaixador americano na Indonésia, fizesse uma visita de “reconhecimento dos factos” na região. A ExxonMobil dirige uma gigantesca produção de GNL (gás natural liquefeito) em Aceh, que fornece energia à China e ao Japão.
Se juntarmos Myanmar à lista dos “alvos emergentes”, um Estado que, embora não respeitando os direitos humanos, é também um aliado importante e recebe ajuda militar de Pequim, vemos desenhar-se bastante nitidamente um cerco potencial contra a China. A Malásia, Myanmar e Aceh na Indonésia constituem flancos estratégicos, onde podem ser controladas as vias marítimas vitais desde o estreito de Malaca, por onde passam os petroleiros desde o Golfo Pérsico até à China. Mais ainda, 80% do petróleo japonês passa por ali.

A Administração da Informação de Energia do governo americano identifica o estreito de Malaca como um dos mais estratégicos “pontos de estrangulamento do tráfego mundial de petróleo”. Não seria conveniente se, no decurso da limpeza de um ninho de regimes tirânicos, Washington pudesse adquirir o controlo deste estreito? Até hoje os Estados desta área têm rejeitado veementemente as tentativas repetidas de Washington para militarizar os estreitos.

O controlo ou a militarização da Malásia, da Indonésia e de Myanmar daria às forças americanas um controlo total sobre o canal marítimo com maior tráfego petrolífero do mundo desde o Golfo até à China e ao Japão. Seria um tufão gigantesco sobre os esforços da China para assegurar a independência energética em relação aos Estados Unidos. Não só a China já perdeu enormes concessões de petróleo no Iraque com a ocupação americana, como o abastecimento de petróleo à China a partir do Irão está também sob uma pressão crescente de Washington.
Retirar o Irão aos Mulás daria a Washington o controlo total sobre o canal marítimo petrolífero estrategicamente mais importante do mundo, o estreito de Ormuz, uma passagem com pouco mais de três quilómetros de largura entre o Golfo Pérsico e o Mar Arábico. A principal base militar americana em toda a região do Médio Oriente é exactamente no estreito do lado oposto ao Iraque em Doha Qatar. Também é aqui que se situa uma das maiores jazidas de gás do mundo.

A Argélia é outro alvo óbvio para a “guerra à tirania”. A Argélia é o segundo mais importante fornecedor de gás natural à Europa continental, e tem reservas significativas de petróleo bruto sulfuroso da mais alta qualidade, mesmo do tipo de que as refinarias americanas precisam. Cerca de 90% do petróleo da Argélia vai para a Europa, principalmente para Itália, França e Alemanha. O presidente Bouteflika leu as folhas de chá de Washington de 11 de Setembro e prontamente prometeu o seu apoio à Guerra ao Terror. Bouteflika apresentara moções para privatizar diversos bens estatais, mas nunca para a vital companhia petrolífera estatal, a Sonatrach. Isto evidentemente não chegava para satisfazer o apetite dos estrategos de Washington.

O Sudão, como já foi dito, passou a ser um dos principais fornecedores de petróleo à China, onde a companhia petrolífera nacional investiu mais de 3 mil milhões de dólares desde 1999, na construção de oleodutos desde o sul até ao porto do Mar Vermelho. A coincidência deste facto com a preocupação crescente de Washington pelo genocídio e o desastre humanitário em Darfur – rico em petróleo – no sul do Sudão, não se esgotou em Pequim. A China ameaçou com um veto nas Nações Unidas contra qualquer intervenção contra o Sudão.
O primeiro acto de um Dick Cheney reeleito no fim do ano passado foi encher o seu jacto vice presidencial com os membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas e viajar para Nairobi a fim de discutir a crise humanitária em Darfur, numa repetição assustadora da preocupação humanitária do secretário de Defesa Cheney em relação à Somália em 1991.

A escolha de Washington da Somália e do Iémen é uma escolha emparelhada, como uma olhadela para um mapa do Médio Oriente/Corno de África pode confirmar. O Iémen situa-se no ponto de estrangulamento do tráfego petrolífero de Bab el-Mandeb, o ponto estreito que controla o escoamento do petróleo ligando o Mar Vermelho com o Oceano Indico. O Iémen também tem petróleo, embora ninguém ainda saiba bem quanto. Pode ser imenso. Uma firma americana, a “Hunt Oil Co.” está a extrair 200 mil barris por dia mas isto parece ser apenas a ponta do icebergue.


O 'ALVO EMERGENTE' IÉMEN EMPARELHA LINDAMENTE COM O OUTRO ALVO VIZINHO, A SOMÁLIA
“Sim, Virgínia”... A acção militar na Somália em 1992, de Herbert Walker Bush, que pôs a sangrar o nariz americano, foi também na verdade acerca de petróleo... Foi pouco conhecido o facto de que a intervenção humanitária de 20 mil soldados, enviados por Bush pai para a Somália, pouco teve a ver com o propagandeado auxílio alimentar aos somalis esfomeados. Teve sim muito a ver com o facto de que quatro das principais companhias petrolíferas americanas, dirigidas pelos amigos de Bush em Conoco de Houston, Texas, e que incluíam a Amoco (hoje BP), a Chevron de C. Rice e a Phillips, tinham todas enormes concessões de exploração de petróleo na Somália. Os contratos tinham sido feitos com o ex-regime tirânico e corrupto de Siad Barre ‘pro-Washington’.

Barre foi inconvenientemente deposto mesmo na altura em que a Conoco noticiou ter encontrado ouro negro em nove poços de exploração, confirmados pelos geólogos do Banco Mundial. O embaixador americano na Somália, Robert B. Oakley, um veterano do projecto americano Mujahadeen no Afeganistão nos anos 80, quase deitou a perder o jogo americano quando, no auge da guerra civil em Mogadiscio em 1992, mudou o seu aquartelamento para as instalações da Conoco por questões de segurança. Uma nova limpeza da tirania somali abriria a porta a estas companhias americanas para traçar o mapa e desenvolver o provavelmente enorme potencial petrolífero na Somália. O Iémen e a Somália são dois flancos da mesma configuração geológica que provavelmente contém enormes depósitos petrolíferos, sendo também os flancos do ponto de estrangulamento do Mar Vermelho.

A Bielorússia também não é nenhum campeão dos direitos humanos, mas do ponto de vista de Washington, é o facto de o seu governo estar intimamente ligado a Moscovo que o torna um candidato óbvio a um esforço de mudança de regime ao estilo ucraniano da 'Revolução Laranja'. Se isso acontecesse, os Estados Unidos completariam o cerco, pelo oeste, à Rússia e aos oleodutos russos de exportação para a Europa. Cerca de 81% de todas as exportações russas actuais vão para os mercados da Europa ocidental. Uma mudança do regime da Bielorússia neste momento limitaria à Rússia com armas nucleares a possibilidade de fazer uma aliança com a França, a Alemanha e a União Europeia para formar um possível contrapeso ao poder da única potência, os Estados Unidos, uma alta prioridade dos geopolíticos da Euroásia, de Washington.
A lista de alvos emergentes numa nova Guerra à Tirania é nitidamente fluida, provisória e adaptável conforme a mudança dos acontecimentos. É evidente que está em marcha nas mais altas esferas uma preparação de futuras ofensivas militares e económicas, de cortar a respiração, para transformar o mundo. A um preço mundial do petróleo de 150 dólares ou mais por barril nos próximos anos associar-se-á o controlo dos pontos de estrangulamento do seu abastecimento sob uma única potência, se Washington atingir os seus objectivos.”

13/Fev/2005

2 Comments:

Anonymous amsf said...

Os EUA, China, India, Europa todos eles tentam garantir que o petróleo flua para os seus países ou multinacionais, uns por meios diplomáticos e comerciais, outros também por meios militares. A subida do barril de petróleo dos 30 para os 65 USD nos últimos 6 anos deveu-se à especulação por casa de conflitos regionais mas também ao facto de o consumo ter- se elevado (India e China)de forma tão surpreendente que as refinarias não conseguem responder à procura. Consegue-se extrai-lo mas não refiná-lo com a rapidez que o mercado exige. A questão que se põe é que os especialistas começam a perceber que a esta velocidade as reservas petroliferas caminham para o esgotamento. É preciso ter consciência que o petróleo é finito, não é um recurso em expansão. As nossas necessidades de energia estão constantemente a aumentar apesar de todos os aperfeiçoamentos técnicos. Se perguntar-mos a uma pessoa de quantos anos precisa a humanidade para duplicar a sua população poucos responderão 70. É verdade, apesar de baixo nível demográfico daqui a 70 anos teremos o dobro da população. Pensem bem...o dobro dos seres humanos! No que diz respeito à energia a situação é pior ainda...não tenho a certeza...mas é qualquer coisa do género...o aumento do consumo energético duplica de 20 em 20 anos.
Suponho que se não sobermos controlar o nossos crescimento demográfico a "realidade" saberá reduzir-nos àquele nº de máximo em que é possível viver ou sobreviver. As guerras, as fomes e as hipedemias sempre tiveram esse papel!

11/6/07 00:18

 
Blogger il _messaggero said...

..teoria da conspiração ou não, importa indicar alguns factos que poderão tornar mais claro este texto:

- A Indía e a China (especialmente esta última), assim como outras potências regionais em ascensão, estão a assentar o seu elevado crescimento em energias não renováveis e poluentes (aliás à medida do sucedido com os países mais industrializados do hemisfério norte aquando da Rev. Industrial); este elevado crescimento, suscitou o acesso a bens e a diversas comodidades por parte de camadas cada vez mais numerosas destes países superpopulosos; isto obviamente reflecte-se no aumento da procura, gerando uma maior oferta, que a daqui a curto prazo gerará uma elecada factura ambiental (que na China já é visível), mas isso é outro assunto...

- se tentarmos olhar por outro prisma, notamos que a China nestes últimos tempos, tem procurado diversificar as suas fontes de obtenção de matérias primas e energia, usando uma espécie de realpolitik energética despida de qualquer constragimento moral em relação aos regimes com os quais estabelece esse tipo de acordos; na minha óptica, isso é apenas possível devido à inexistência de uma opinião pública forte na China que censure este tipo de ligações...Por exemplo, a China entrou no Sudão, depois da opinião pública britânica ter começado a censurar as relações da BP com o regime de Cartum - foi a BP que começou a construir o tal oleoduto...E o mesmo se aplica em relação a outros regimes. A China, face à progressiva censura das opiniões públicas ocidentais (cada vez mais sensíveis em matéria de respeito de direitos humanos), tem vindo a ocupar quer a posição ocupada pelos Europeus em África, quer a posição ocupada pelos EUA na América do Sul (já é a 2ª importadora de petróleo vindo da Venezuela atrás dos EUA)...Mas ao contrários destes países, a China pode explorar a seu belo prazer, sem ter que se preocupar com uma opinião pública forte...

- enormes reservas de petróleo têm sido descobertas nas ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, onde a velha elite soviética se faz perpetuar no poder...a situação do Afeganistão atraiu um pouco as atenções para esta parte do globo, mas é um facto que a dualidade de critérios dos EUA em relação a esta parte do globo é gritante...às tantas deve-se ao facto de não quererem perder o comboio para a China ou mesmo para a Rússia, que olha para estas repúlica como parte da sua esfera de segurança...

- O bloqueio dos países árabes da OPEP em 73 em retaliação à derrota na Guerra do Yom Kippur e ao apoio dado pelas potências ocidentais a Israel (bloqueio que quase paralizou o Ocidente e causou enormes transtornos), fez com que a política energética e a diversificação de fontes fosse encarada como ponto fulcral na agenda externa dos países...

- todos as potências e grandes impérios, procuram perpetuar o seu poder...Se a IªGuerra Mundial representou a ascensão do século americano (com o progressivo abandono da política isolacionista que este na base da criação dos EUA), que teve o seu clímax no início da década de 90 (derrota do outro grande bloco, a exaltação dos valores americanos - que na sua génese são ocidentais - assim como o seu modelo económico), não tenhamos dúvidas que no próximo século, o centro se deslocará para a Ásia...A postura profética em termos de política externa por parte dos neo-conservadores desta administração Bush - aliás um pouco na senda do sempre aclamado Clinton, que também manteve uma postura similar em termos de política externa - de irradiação universal dos valores americanos, pelos alvos escolhidos e pela incoerência usada, põe a nú as verdadeiras intenções de manutenção de supremacia americana no mundo, se bem que ache um pouco excessivo toda aquela teoria da conspiração que o texto enuncia...

- Poderemos criticar muitos os EUA (a sua recusa em acatar tratados internacionais das mais variadas matérias; o modo arrogante e prepotente como impõem os seus valores ao resto do Mundo, sem respeitar por vezes matrizes civilizacionais diferentes), mas a verdade é que teremos de reflectir bem e imaginar uma supremacia chinesa no mundo similar à americana do modo como actualmente existe...Inquestionavelmente, os EUA possuem internamente muitos mecanismos de controlo (fazem eleições, a liberdade de expressão é imensa, pese possa transparecer algum controlo de informação - normalmente desconhecem o que se passa para lá das suas fronteiras, mas isso deve-se à sua imensidão geográfica), mecanismos esses que não existem actualmente na China...Logo pese o seu belicismo e arrogância, os seus propósitos e o seu dominío terá de ser considerado benévolo, isto quando analisado na globalidade...

Mas, isto não invalida que concorde com o que é referido no post...

11/6/07 23:38

 

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