Porque o mais provável é ninguem ligar ao que tens a dizer...

quinta-feira, maio 03, 2007

Por uma verdadeira politica cultural na Madeira II

A democracia cultural, mais do que permitir o acesso aos bens culturais (como acontece na fase de democratização) vem abrir o campo, ultrapassa a lógica da fruição, centrando-se na criação, na dessacralização do objecto cultural. Mas, se em sociedades mais desenvolvidas que a nossa tal transição é difícil, imaginem a tarefa hercúlea que não seria na nossa ilha.. Por isso, sem querer dar um passo maior que a perna, centremo-nos em objectivos mais realistas, o de promover uma democratização cultural sustentada, com uma programação cuidada e preocupada com a formação de públicos.
Olhemos para a programação: a programação cultural na Madeira prima precisamente pela a ausência da mesma. A planificação, não vai além de festa para turista ver. A preocupação com o público madeirense é incipiente.
Na Região, festivais de jazz, de cinema, teatro, exposições, ainda assentam numa lógica hierárquica de modelo cultural. O acesso apesar de livre e democrático é vedado por mecanismos simbólicos e económicos. Existe uma demarcação clara do que é cultura tida por alta, apregoada pelos que dominam o campo, e que pode ser encarada como fruto de um gosto cultivado e a cultura de massas que abrange o restante público. Enquanto não conseguirmos ultrapassar esta dictomia, através da promoção do contacto do indivíduo com as obras culturais de modo a dessacralizar o objecto artístico e quebrar barreiras simbólicas, não conseguiremos ultrapassar este modelo hierárquico de cultura.
Outro entrave, são os custos económicos, com efeito a insularidade tem custos que inflacionam o preço a pagar pelo acesso à cultura, mas outro factor a ter em conta é o nosso PIB empolado. No caso do teatro, a mesma peça cujo o bilhete em Bragança custa 10 euros na Madeira poderá custar 20 euros. Este preço não advém dos custos da operação logística de trazer um espectáculo à região, mas do critério adoptado pelas companhias (que são subsidiadas pelo Estado) no sentido de promover a formação de públicos! Assim 20 euros, tendo em conta o PIB regional seria o preço “justo” a pagar e que permitiria um acesso generalizado da população à obra. O que acontece, é que por força da falácia dos números exclui-se o acesso mais alargado.
Mas se o custo elevado a pagar é um entrave a formação de públicos, o contrário também pode ser verdade! A “ausência” de custo, e o acesso indiferenciado também são factores perniciosos. A sociedade madeirense, de forma geral, não está habituado a pagar pelo acesso a bens culturais. A lógica do convite impera sobre o desejo de ir ver, o acesso grátis a eventos, como concertos (atentemos por exemplo ao período de campanha), criam a assumpção da cultura enquanto bem adquirido, fornecido sem custos para o utilizador. As outras regiões do país também não são exemplo a nível da implementação de politicas culturais, mas existe a noção de que é preciso pagar para aceder. Sem querer entrar nos meandros da qualidade musical de um Tony Carreira, a verdade é que este enche, a pagar, o pavilhão Atlântico, duvido que conseguisse o mesmo numa sala bem mais pequena como a do Técnopolo. Nivela-se por baixo a qualidade em detrimento da quantidade, os critérios de programação passam por adquirir espectáculos ou eventos culturais estandardizados ou limitando-se a grandes encenações mediáticas para consumo externo (Carnaval, Fim do Ano, Festa da Flor etc.) Assim, não se criam públicos pois tal implicaria o envolvimento dos mesmos na selecção daquilo a que quer aceder. Paradoxalmente, na região, parece passar-se precisamente o contrário. A procura é que se adapta a oferta, Vamos ao que há, seja um festival de música electrónica porque vão todos, ao concerto do Tony Carreira ou da Fáfa de Belém num comício porque é grátis, vamos ao arraial dos Lameiros porque fica bem ser visto por lá, vamos ver o Fogo do Festival Atlântico porque sim…
Há que encontrar um meio-termo, um compromisso de qualidade, que se preocupe com a formação de públicos, que não entenda o mesmo como uma massa homogénea mas como um mosaico de auditórios parcelares. A este propósito, como já referi noutro post, a Fnac é exemplo de como é possível dessacralizar a cultura sem a massificar, atendendo às necessidades de consumo diferenciadas dos auditórios parcelares.
O acesso à cultura deve ter custos, custos suportáveis que sejam justificados pela qualidade e diversidade de oferta, que tenham em conta o poder de compra real, no caso de entidades subsidiadas, e as regras de mercado no caso de outras. Não é só democratizar, há que atentar na qualidade da democratização! Este conceito, deve ser entendido como o acesso de vastas populações a TODOS os níveis de cultura e não um nivelamento por baixo (cultura de massas) ou por cima (cultura erudita como oposta ao mercado) desses mesmos níveis de cultura. Só assim conseguiremos romper com o modelo hierarquizado que impera na região, passo fundamental em direcção a uma verdadeira democracia cultural.

 
Free Web Site Counter
Hit Counter