Porque o mais provável é ninguem ligar ao que tens a dizer...

domingo, abril 15, 2007

A Guerra dos Mundos


Avizinha-se uma guerra de culturas a nível global, guerra essa que se não for evitada será travada tanto nos desertos do Iraque como nas ruas de Paris. Trata-se da guerra entre o ocidente e o islão, e embora no seu esforço pelo politicamente correcto os meios de comunicação, população e entidades politicas mainstream evite assumi-lo a todo o custo, a verdade é que, também graças à obsessão pelo politicamente correcto, este choque de culturas se poderá transformar numa verdadeira guerra. Sempre acreditei que a comunidade islâmica nas sociedades ocidentais tem o seu lugar da mesma forma que as comunidades cristãs, budistas, ateias e até sportinguistas ou qualquer outra, uma vez que sou um profundo defensor da total laicidade do estado. No entanto cada vez mais surgem-nos relatos de muçulmanos radicais, nascidos e criados no ocidente, que fazem a apologia da destruição das sociedades ocidentais que os criaram e a instauração da lei islâmica (em Inglaterra há por exemplo um movimento que defende a instauração da lei islâmica no Reino Unido!!).


Radicais sempre os houve, mas verdade é que a atitude das autoridades e das sociedades ocidentais perante estas "minorias" parece-me cada vez mais perigosa. A obsessão pelo politicamente correcto corre o risco de extremar posições. Nos Estados Unidos tornou-se noticia recentemente uma não noticia: um canal de tendências claramente de direita noticiou que investigou a cobertura noticiosa do assassinato indiscriminado de 5 pessoas, demonstrando como os meios de comunicação moderados fizeram todos os possiveis por esconder o facto de que o responsável era uma muçulmano exilado da Bosnia, que frequentava regularmente uma mesquita e que testemunhas oculares afirmam que aquando da matança à facada gritava descontoladamente "Alá Achbah!!!". Não pondo em causa que o individuo estava fora de si e que a religião provavelmente nada terá a ver com o sucedido, a verdade é que o facto de se esconder essa parte da estória deixa a ideia na sociedade de que há uma espécie de complô por parte dos media para proteger os muçulmanos. Mas este "tratamento especial" não se resume aos media: na Alemanha um grupo de três irmãos turcos assassinou a irmã porque esta decidiu ser mãe solteira, trazendo assim vergonha para a familia segundo a lei islâmica. Aceitando que se tratava de um crime de honra relativamente justificado pelas crenças dos homicidas, um juiz alemão condenou um dos homens a 6 (!!) anos de prisão e os outros a uma pena suspensa. Também na Alemanha uma juiza recusou conceder o divórcio a uma mulher muçulmana que era espancada pelo marido sob o pretexto de que o casal havia celebrado matrimónio em Marrocos sob a lei islâmica pelo que a violência física por parte do conjuge era previsível e... aceitável. Estes, e outros relatos, se não forem devidamente discutidos correm o risco de fazer crescer nas sociedades uma sensação de mal estar e de repudio face às comunidades que mais cedo ou mais tarde explodirão sob a forma de conflito social. O silêncio sobre os assuntos tratados como tabú e a obsessão pelo politicamente correcto correm o risco de fazer cerscer a antipatia face às comunidade muçulmana como um cancro. Não sendo psicólogo (nem sociológo ao contrário do nosso amigo MB) acredito que uma sociedade reaja no seu todo de forma semelhante a um individuo, e é puro bom senso que um indivíduo deve falar (com os amigos, com a familia, com um psicologo) sobre aquilo que o preocupa e atormenta, em vez de se manter calado a "remoer" com os seus pensamentos e sentimentos, sob o risco de que todos esses pensamentos e frustrações venham todos ao de cima mais tarde com consequências bem mais nefastas.

As práticas exemplificadas em cima são o tipo de comportamento que empurra os moderados para os extremos radicais. Se este sentimento cresce na sociedade e os moderados obcecados pelo politicamente correcto não falam sobre ele, as pessoas virar-se-ão para aqueles que falam: os extremistas. Considerando-me um moderado, acredito que todas as pessoas que vivam num país que não o seu (falando também por experiência própria), devem procurar respeitar e adaptar-se ao máximo às regras de conduta, leis e costumes do país/cultura/região anfitrião. No entanto surgem cada vez mais elementos das comunidades islâmicas a contestar e a quebrar as regras dos países ocidentais, e no entanto o tratamento que vêm recebendo é de compreensão e de aceitação do desrespeito pelo modo de vida ocidental como "diferenças culturais". Concerteza que qualquer ocidental que passeie nas ruas da Arábia saudita de Bikini não será compreendida como uma "diferença cultural" (mais provavelmente será presa ou apedrejada). Pelo contrário, parece-me que a Europa sente uma espécie de remorso colectivo face ao seu passado e especificamente às cruzadas, pelo que a unica forma que encontra para enfrentar o problema é ignorá-lo.

Aquando do assassinato do cineasta holandês Theo Van Gogh - que apareceu morto com uma faca no coração onde se encontrava um manifesto anti-ocidente de 5 páginas, após ter sido baleado mais de 20 vezes numa rua de Amsterdão - devido a um documentário considerado ofensivo pelo islão, numa manifestação de pesar pela sua morte alguém escreveu numa parede junto ao local onde estava a ser velado "Não matarás". O governo holandês apreessou-se a mandar pintar essa parede, uma vez que a frase poderia ser entendida como uma afronta aos muçulmanos. Ora esta frase é um principio fulcral na identidade ocidental (naturalmente por influência cristã). Se a frase "não matarás" é temida por poder ofender os muçulmanos, parece-me um sinal claro de que o ocidente, e fundamentalmente a Europa, enfrenta um sério problema que se recusa a resolver, desejando à boca fechada que ele desapareça por si só. No entanto no Reino Unido muçulmanos fazem manifestações à porta de igrejas anglicanas enquanto lá dentro decorrem cerimónias religiosas, e a unica atitude que é tomada pelas autoridades é o envio de escoltas policias para os proteger.
Há aqui um duplo tratamento óbvio, e creio que sinceramente quem está errado somos nós (ocidente). Com a obsessão da aceitação das diferenças culturais e o politicamente correcto, já se discute no Canadá e no Reino Unido a possibilidade da instauração de regimes jurídicos de excepção para as acomunidades muçulmanas, baseados na lei islâmica. Este é o tipo de atitude que corre seriamente o risco de pouco a pouco empurrar os moderados para os extremos.
Eu pessoalmente aceito todas as religiões e credos como parte óbvia da liberdade individual da democracia. No entanto faz também parte da democracia o pressuposto de que todos são iguais aos olhos da lei, pelo que não há lugar à lei selectiva. É a minha crença que estes problemas apenas podem ser ultrapassados através de muito diálogo e discussão através dos vários meandros da sociedade, sob pena de que se não forem assunto agora, sê-lo-ão mais tarde quando o conflito chegar às ruas, e acredito que com o actual rumo de desenvolvimentos, mais cedo ou mais tarde lá chegarão.


Felizmente em Portugal, como sempre país de brandos custumes, este não me parece ser um problema verdadeira ou pelo menos imediatamente pertinente, mas esta realidade, afectando sociedades que nos são tão proximas como a inglesa, alemã e francesa (os americanos não são tão politicamente correctos, também porque são por natureza menos moderados) também terá as suas consequencias no nosso país. Por este motivo deixo o meu apelo a todos os moderados que falem, discutam, e oiçam... para que os extremistas não fiquem com o monópolio deste tópico potencialmente catastrófico para o mundo ocidental.

6 Comments:

Blogger MB said...

A analogia sociedade/individuo é interessante mas o individuo é que reage em função da sociedade. A não discussão, o politicamente correcto é imposto exteriormente, é um ruído de fundo, um silêncio incomodativo que a sociedade impõe ao individuo. A génese de um movimento de discussão é castrada pelo peso do societal.
A radicalização islamita na Europa é uma questão deveras complexa, tão mais complexa se atendermos aos principais protagonistas de tal movimento. São os filhos dos imigrantes, a segunda geração, nascida e criada no seio das nações que acolheram os seus pais.
O caso francês é paradigmático, junte-se a falta de oportunidades a uma estrutura social e geográfica segregativa e obtemos uma mistura explosiva! Sem oportunidades os jovens dos subúrbios franceses, filhos dos imigrantes e "franceses de segunda" das ex-colónias, são presa fácil das influências extremistas. Sem perspectivas de futuro viram-se contra aqueles que ao mesmo tempo que os acolheu segregou-os. A liberté, egalité et fraternité, propalada pela revolução francesa foi bastardizada
A liberté é conspurcada pelo vírus da auto-censura, a egalité é ameaçada pela diferenciação legislativa de acordo com a religião, e a fraternité foi mal entendida, fraternité entre os iguais por força da diferenciação do outro, de um lado os franceses do outro a irmandade islâmica radical e outros extremismos.
Quanto ao país de brandos costumes, não nos iludamos, mais que brandos costumes um país em lume brando à espera de atingir o ponto de ebulição. Olhemos para dentro, para os subúrbios de Lisboa... Os problemas são os mesmos que em França, falta de oportunidades conduz à revolta à delinquência, ao recurso a estratégias ilícitas de sobrevivência. A diferença é que Portugal não colonizou nenhum país islâmico. No caso francês, o extremismo religioso é o parasita que encontra terreno fértil no corpus fragilizado de franjas da sociedade dos "Suburbios Desquecidos e Ostracizados". e falo em subúrbios porque no meio das incógnitas sociológicas todas existe uma certeza, este é um fenómeno eminentemente urbano.
Em Portugal o ingrediente que levará à ebulição do lume brando será outro. Levanto a hipótese de esse ingrediente que falta ser o próprio português, nascido e criado em Portugal, o tal que cada vez mais mostra o espírito saudosista, o tal que gasta 60 cêntimos mais IVA a ligar para concursos televisivos. Um incidente por menor que seja pode dar azo a uma espiral de violência urbana em Portugal como nunca se viu.

Acerca desta temática aconselho o Filme La Haine (O ódio), cuja a história centra-se a volta de três amigos, um judeu, um arábe e um negro, de um bairro nos subúrbios de Paris... a transposição do cenário retratado é bem possível para Lisboa.

16/4/07 15:30

 
Blogger BarreteDeOrelhas said...

A questão francesa parece-me um pouco à parte do tópico que tentei focar no meu post. A guerra religiosa não se passa em França como na Alemanha ou no Reino Unido. A questão francesa parece-me claramente despoletada por problemas económicos e de exclusão social, da qual a religião pode fazer parte mas é apenas mais um factor (e provavelmente nem dos mais importantes actualmente). Os motins que lá se passaram não foram perpertrados por fanáticos religiosos, mas sim por jovens desenraziados,sem educação colocados à parte da sociedade francesa num gheto que não lhes permite quaisquer perspectivas de vida. Nesse ponto aceito o paralelismo com a situação portuguesa.

Mas não foi de França que vieram alguns dos responsáveis materiais pelo 11 de Setembro, foi de Hamburgo. Não eram jovens delinquentes, eram estudantes universitários, engenheiros electrotécnicos, etc. Não foi no metro de Paris que rebentaram bombas, foi em Londres. Não podemos confundir um acontecimento que foi, apesar de tudo, uma forma de protecto social(apesar de violento) com terrorismo organizado.

O que me atemoriza sinceramente é o contrário, do que propões como o perigo iminente. O que me atemoriza não é que essas minorias venham para a rua como vieram em França. O meu receio é que a maioria (os europeus de orientação europeia) venha para rua contra as minorias e que o extremismo europeu ganhe força face à apatia/conivencia dos governantes perante o comportamento de alguns muçulmanos.

Basicamente receio que, face à realidade descrita no post, tanto europeus moderados (Cristãos ou lá o que sejam) como muçulmanos moderados se estejam a aproximar cada vez mais dos extremos, em vez de se encntrarem no centro.

19/4/07 19:15

 
Blogger MB said...

Por isso mesmo em relação a França falo do radicalismo religioso como parasita que encontra terreno fértil nas camadas mais fragilizadas da sociedade. Em relação ao perigo iminente concordo plenamente com a origem q referiste daí no caso de Portugal levantar a hipótese de ser precisamente o português o ingrediente que falta.O português face à crise, as frustrações acumuladas só está à espera de um bode expiatório e desde sempre, como a História mostra vezes sem conta, o estranho, o estrangeiro é sempre um alvo perfeito.

19/4/07 22:02

 
Blogger BarreteDeOrelhas said...

LoL epah pelo rumo que tu estas a levar o debate e pelo rumo para onde tento levar o debate, só me resta concluir uma coisa: tu estás preocupado com Portugal e eu com a Europa...

20/4/07 18:54

 
Blogger stanica said...

O título é sugestivo e realista, a "Guerra dos Mundos". O choque entre o Ocidente e o Mundo Islâmico é cada vez mais patente. Não se pode ignorar que desde o 11 de Setembro, o fenómeno de combate aos fundamentalistas islâmicos se intensificou. Desde então, temos ouvido falar numa "guerra preventiva" de combate ao terrorismo, que parece justificar o uso da força armada para invadir territórios soberanos, com a justificação de manutenção da paz, através da invocação da Legitima Defesa que consta da Carta das Nações Unidas. A última Guerra do Iraque é um dos exemplos, uma vez que as armas de destruição maciça foram o pretexto para invadir o Iraque, tentando legitimar uma invasão áquele território. Armas essas que nunca foram descobertas, por muito que os peritos do Conselho de Segrança procurassem.

Pessoalmente creio que há um antagonismo muito grande neste âmbito. Ao mesmo tempo que se invade e se sanciona os países que são supostamente violadores dos Direitos Humanos, agindo "preventivamente" contra os mesmos, parece que se caí num politicamente correcto rídiculo! Diria até, que agimos com medo à presença da comunidade islâmica espalhada pelos países de todo o Mundo.

Um cidadão quando decide deslocar-se para um outro país, está vínculado ao ordenamento jurídico do mesmo. Há um dever de obediência perante o mesmo. Independentemente da sua crença, cor, raça, nacionalidade.

Mas parece-me que afinal, em virtude de não sei bem o quê, se por medo ou estupidez, as sociedades ocidentais começaram a dar um "tratamento especial" a cidadãos islâmicos que residem no Ocidente.
Jamais pensei que na europa, um Juíz decidiria que os abusos fisicos são toleráveis e previsiveis, porque tal ocorre no seio de uma familia islâmica, ainda que residam num país europeu, mais concretamente na Alemanha.
Portanto, o que aqui na minha perspectiva ocorreu, foi uma sentença com permissão para matar. Pois um dia destes se a dita senhora que era espancada pelo marido, for encontrada dentro de uma qualquer valeta, era absolutamente previsivel e tolerável que tal acontecesse. Ela que não tivesse casado em Marrocos! Se sentenças destas continuarem a ser proferidas não há lei que proteja mulheres que sofram este tipo, e não só, de agressões. O crime afinal compensa!

O ridículo do "políticamente correcto" é alguns países quererem instaurar a lei islâmica em países do Ocidente. Que ideia é esta? Vamos agora criar um "apartheid Jurídico"? Este é o modo que encontraram para combater grupos radicais? Estamos, portanto, a legalizar no Ocidente, legitimando actuações radicais e absolutamente violadoras dos Direitos Humanos, das comunidades islâmicas. Deste modo, estamos a patrocinar o fundamentalismo e não a combatê-lo.

O combate ás violações dos Direitos Humanos que acontecem por todo o mundo, que tanto lutamos para que não aconteçam, que recriminamos e noticiamos com a maior das indignações, passará a ser excepção dentro dos nossos próprios países?! Querem, portanto, que vigore um regime de excepção, dentro do nosso ordenamento? Honestamente, este tipo de sugestão, ultrapassa em absoluto a minha compreensão!
Aparentemente é tão legitimo bombardeá-los, como protegê-los pelos mesmos principios.

Estamos a contribuir para um cada vez maior fosso das diferenças culturais. A fomentar a divisão, que hoje é enormissíma, para uma divisão cada vez mais abissal...

5/5/07 13:59

 
Blogger BarreteDeOrelhas said...

Antes de mais obrigado por me fazeres ver que alguém percebeu "the point" deste post.

Gostei também da forma como o desenvolveste e realmente concordo: parece que numa sociedade em que "aceitar as diferenças" é um slogan tão usado, se está a esquecer que mais importante que o que nos divide é aquilo que nos une: a humanindade. Aceitar as diferenças do modo descrito no post é, como referiste, aumentar o fosso e expandir as diferenças, em vez de unir e conciliar uma sociedade que se deseja o mais simétrica possivel.

5/5/07 16:55

 

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