Porque o mais provável é ninguem ligar ao que tens a dizer...

quarta-feira, maio 11, 2005

Fear and Loathing in Oporto

Sei que prometi participar com regularidade mas que falhei redondamente, mas enfim, tenho uma desculpa, estive noutro planeta... ou pelo menos é essa a sensação que tenho. Estive uma semana completamente alheado do que me rodeia. Posso dizer que na semana passada o mundo passou-me ao lado.
Geralmente, quando vamos de férias, perdemos o contacto com a realidade do nosso país, mas por mais longe que estejamos os acontecimentos globais chegam até nós. Acredito que mesmo que estivesse no canto mais recôndito da Papua Nova Guiné a noticia da morte do Papa havia de chegar até mim... O que se passou é que, mesmo sem sair de Portugal, isolei-me do mundo, não vi televisão, não li jornais, nada de internet, o meu dia virou noite e a noite fez-se dia. Em resumo, estive na Queima das fitas do Porto.
Para quem não percebe o conceito, ou para quem só cá vem fazer a visita de médico: a queima é um espaço fisico e temporal de supressão da normalidade, onde durante uma semana (nocturna!) comungamos com o próximo, num ritual étilico, na busca do nosso verdadeiro "EU"! Em palavras simples, passas uma semana a ver o sol só quando nasce, caminhando sobre a fina fronteira que separa o "bon vivant" do álcoolico crónico. Uma semana em que tomar o pequeno almoço às oito da noite e jantar às oito da manhã ( de preferência alguma coisa cheia de molhos na roulote mais infecta das redondezas) é normal, e onde ter uma taxa de alcoolémia inferior a 0,5 é crime!
Outro aspecto essencial da queima, nenhuma relação interpessoal sai incólume... é normal quando passas oito noites a beber com as mesmas pessoas, o álcool liberta o espirito e solta a língua, o cinismo não existe numa queima, principalmente se for a última. Fortalecem-se relações e acabam-se relações, meses e anos de guerra fria esfumam-se ao décimo copo. Neste aspecto ir á queima é um pouco como viajar, dizem que não há nada como ir de férias com alguém para conhecer essa pessoa realmente. De um ponto dde vista sociológico, saímos do que Goffman chama de região de bastidores e vamos para a fachada, sem guião, sem máscaras... O verdadeiro "EU" liberto pelos vapores etílicos.
O problema é que a semana chega ao fim... Acordas no Domingo à noite e não tens para onde ir... Um sentimento de culpa instala-se, apercebes-te que o mundo não parou enquanto o puseste em espera, os exames aproximam-se, a data de entrega do teu seminário pende sobre ti como a espada de Democles e a tua mesada esfumou-se em poucos dias... Parece que uma semana perdida foi um mês! É o que eu chamo de "sínrome pós-queima". A única coisa de útil que fizeste foi contribuir para os lucros da Unicer. É então que pensas, " Se calhar devia ter trabalhado um pouco esta semana...". Ehh... ou não!!!

 
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